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Egito: Esna e o templo tomado pelos pássaros

O Templo de Khnum, repleto de pombos e mistérios, mas vazio de turistas


Esna é uma cidade pouco conhecida do sul do Egito. Fica localizada na beira do Rio Nilo, no caminho entre Aswan (167 km) e Luxor (60 km). Nessa pequena cidade se encontra um antigo templo dedicado ao deus Khnum (aquele simbolizado com cabeça de cabra) e esquecido das massas turísticas. 


COMO CHEGAR?

Ao planejar meu roteiro pelo Egito, uma das grandes incertezas era como eu chegaria até Esna. Existe uma estação de trem lá, mas o trem regional do Egito possui horários incertos e a informação de que pode ser negado para turistas. Nos dias anteriores, acabei conhecendo em Aswan um taxista diferente dos demais que costumam assediar turistas pelo Egito. Era bem confiável, não tinha jeito de malandro e até usava roupas ocidentais (para alguns isso é confortante). Decidi ganhar tempo e combinei uma corrida de Aswan para Luxor (meu próximo destino), parando no templo de Esna. 

Não, não foi esse táxi que eu peguei até Esna!


Encerrei minha hospedagem em Aswan pela tarde e foram quase 3 horas de carro até Esna, passando pelas pobres cidades na beira do Nilo. Ao chegar no destino, o táxi cruza uma das duas barragens existentes lá, uma antiga, construída pelos britânicos (1906) e outra moderna, chamada Ponte Elétrica (1990) que usa a força das águas do Nilo para gerar energia. 

A ponte abre para a passagem de cruzeiros turísticos que descem o Rio Nilo


UM TEMPLO ESCONDIDO PELA CIDADE

Diferente de outros templos egípcios, este foi cercado de perto pela cidade que cresceu em volta desordenadamente. O Templo de Khnum fica na margem esquerda do Nilo, afastado apenas 200 metros da água. O caminho até lá passa por um caótico mercado que costuma funcionar quando chegam os cruzeiros e os turistas aparecem. A entrada para o templo é cobrada em uma guarita velha e enferrujada.

Na beira do rio existe uma placa que direciona à entrada do templo


O mercado estava fechado e a aparência fazia eu crer que estava entrando numa furada


Com o passar dos anos, ocorreu acúmulo de sedimentos na terra da cidade de Esna, deixando o Templo de Khnum com uma diferença de 9 metros de altura (!) da cidade recente. Isso mostra quanto tempo se passou desde a construção da base do primeiro templo (pois é, existia um templo muito mais antigo do que este que vemos hoje).

Na época de construção do templo, o solo era 9 metros mais baixo


O TEMPLO DE KHNUM

O Templo de Khnum, ou Templo de Esna, era dedicado ao deus representado com cabeça de cabra e considerado um dos mais antigos da mitologia egípcia, tendo surgido nos primórdios do Rio Nilo.  A lenda diz que ele regulava as águas do Nilo através das inundações anuais que fertilizavam os campos com a argila espalhada e assim permitia a prática agrícola e, consequentemente, a vida ao longo do rio. O seu nome significa "o modelador" e também era relacionado à criação dos seres humanos, formando não só a carne, mas também o seu "ka" (parte da alma). É interessante essa relação entre argila x criação dos humanos x vida... isso te lembra outra lenda famosa do cristianismo?

Frente do Templo de Khnum


O que vemos hoje é apenas uma parte do templo, o que seria a sua sala hipóstila, ou sala de colunas, muito comum na entrada dos grandes templos no Egito Antigo.

Planta do templo


Quando viajo, evito ao máximo visitar lugares com guias. A maioria das pessoas acha que se ganha mais com um guia, com suas explicações prontas sobre cada coisa, mas pra mim isso é um problema. Um exemplo: ao se chegar na área do templo, existe um cartaz explicativo em inglês que afirma que o templo data do período Romano e Ptolomaico, sendo um dos últimos templos construídos no antigo Egito. 

Cartaz explicativo (meias explicações)


A explicação da placa é suficiente para o turista convencional, mas ninguém cita que o templo foi construído sobre os alicerces de outro bem mais antigo, supostamente da época do Rei Tutmés III, (1457-1425 a.C.). A verdade é que nem a arqueologia conseguiu explicar algumas coisas e é melhor dar as explicações pela metade, mas que sejam conclusivas. Que segredos se perderam no passado desse templo?

A porta de entrada do templo com grades de proteção


OS PÁSSAROS E O TEMPLO

A primeira coisa que percebi no templo foi a ausência de turistas, provavelmente pela distância de Esna dos centros turísticos (Cairo, Luxor, etc.). Além de ser um templo vazio de pessoas, é lotado de pássaros! É como se os seres alados tivessem tomado o templo e expulsado os humanos! Bem, voltando à realidade, a quantidade de pássaros, na maioria pombos, pode ser explicada pela proximidade da cidade e, quem sabe, pessoas que alimentem os pombos como acontece em Veneza, na Itália.

O templo é repleto de pássaros por todos os cantos


A população de pombos ser comparada a da Praça São Marcos de Veneza


A explicação de que quantidade de pombos tem os mesmos motivos da Praça São Marcos em Veneza, onde a quantidade de pessoas é imensa e passam o dia alimentando os pombos, inicialmente seria aceitável, mas se atentarmos para alguns detalhes... as coisas começam a ficar estranhas. Em primeiro lugar, observei que os pombos não pousavam no chão, um comportamento esperado de aves que procuram comidas deixadas pelos humanos. Outro detalhe, não lembro de outros lugares no Egito com uma quantidade tão grande desses pássaros, nem mesmo onde estão os turistas.

O templo é todo cercado de telas para evitar a entrada dos pássaros, que são muitos!


Este foi único templo que eu encontraria no Egito totalmente envolvido por telas de proteção para evitar a entrada de pássaros. Mas foi ao entrar no templo que encontrei algo ainda mais intrigante: um relevo antigo que retrata uma quantidade enorme de pássaros, como aqueles que estavam lá fora! Será que essa atração causada nos pássaros acontece desde os tempos da Dinastia Ptolomaica, de 305 a 30 a.C.???

Relevo que retrata vários pássaros. Seria coincidência com a atualidade?


E o que seria esse ser alado em meio aos hieróglifos?


ARTE E SEGREDOS NO INTERIOR 

Apesar de restar apenas esta sala de colunas do templo original, os relevos e paredes do interior se encontram em condições até boas para um templo esquecido no interior do Egito.  Ainda  existem melhorias em andamento através do processo de restauração. 

A Sala Hipóstila foi a única parte do templo que ainda resta


Detalhes da arte da coluna bem conservada


Nas paredes se encontram as mais variadas formas e desenhos, desde referências aos reis do período Ptolomaico, datas festivas e até a descrição do ritual de purificação que os antigos deveriam passar para entrar no templo. De acordo com inscrições, era necessário ter a unhas dos pés e das mãos cortadas, remover pelos do corpo, lavar as mãos com natrão (um sal natural usado em mumificações), estar vestido de linho (proibidos usar lã), e não ter tido relações sexuais durante vários dias.

O deus Khnum é frequentemente representado (esquerda)



A RESTAURAÇÃO VISÍVEL A TODOS

O templo se encontra sendo restaurado, inclusive com as cores originais sendo buscadas novamente. Uma atração à parte é observar como o processo de recuperação é feito e seu efeito de suscitar o passado.

Andaimes montados no interior do templo


Aqui se pode observar a área da parede onde ocorre a restauração


A visão que um elemento restaurador tem das figuras antigas


Cada relevo, cada cartucho, cada hieróglifo vai ressurgindo com suas cores originais


Essa restauração parcial deixa bem evidente o efeito do trabalho realizado


MISTÉRIOS OCULTOS NAS PAREDES

Cada detalhe, cada canto do interior do templo, é repleto de figuras e hieróglifos talhados. Eu poderia passar o dia inteiro encontrando símbolos enigmáticos, mas vou registrar aqui apenas alguns que me chamaram a atenção e que dificilmente você encontrará em livros ou na internet.


Quantos códigos estariam gravados nessas paredes?


O teto do templo talvez seja o local onde estão os maiores enigmas. Relevos de deuses, animais sagrados, serpentes exóticas... e até mesmo um zodíaco! Pois é, quando se fala de zodíaco na egiptologia, logo se relaciona ao Templo de Dendera, o mais famoso por ter seus signos expostos no Museu do Louvre. Mas o Templo de Khnum também possui indícios de uma representação zodiacal com os signos conhecidos até hoje pela nossa civilização ocidental.

O teto do Templo de Khnum possui todo tipo de figuras simbólicas



Relevos do teto que formam o Zodíaco de Esna (imagem da internet).
 Consegue identificar os signos?


O disco solar e as serpentes costumam ser símbolos bem comuns na cultura egípcia, mas a maneira como são retratados em Esna, com certeza, até os amantes dessa cultura dificilmente já viram ou imaginaram. Abaixo, vemos discos solares sendo representados aos pés das deidades (ao contrário do convencional que é colocado acima da cabeça). E as serpente então, representadas como transporte humano, como sendo brotada por árvores, e até com pernas e antena!

Diversos seres divinos com o disco solar abaixo dos pés


A serpente é representada da maneira mais variadas, até mesmo com pernas!


Para que acha que tudo o que foi observado sobre as figuras de serpente até agora é apenas fruto da criatividade de algum artista fã de cobras, tente explicar a figura abaixo que lembra as formas das Linhas de Nazca, no Peru. É quase impossível não identificar que existe algum código oculto nessas formas.

Nessa imagem, a serpente é representada de formas totalmente fora do comum


A SIMBOLOGIA NA PARTE EXTERNA


Além das representações de Khnum, outros deuses também são representados, formando uma trindade: a deusa Neith (cabeça de leão) e Heka (a magia). Na parede ocidental do templo existem representações dos reis Ptolomeu VI e Ptolomeu VII.

Ritual acompanhado por Khnum (direita)


Outro ritual, dessa vez acompanhado pela deusa Neith


Cartuchos com inscrições hieroglíficas ainda coloridas


A "cabeça de cabra" de Khnum reproduzida de maneira rudimentar


Na parte de trás do templo (ocidental) é possível perceber as ruínas do que seria uma parede que continuava o templo e hoje já não existe. Assim como os demais templos egípcios, as paredes escondem todos os tipos de simbologia, coisas que talvez nunca vamos traduzir.

Pode-se observar os restos do que seria uma parede da parte que não existe mais



Desenho diferente do comum: o guerreiro segura a cabeça do inimigo que se reproduz


Algumas estátuas encontradas em escavações ainda estão na área do templo


PARTIDA PARA LUXOR

Terminada a exploração pelo templo, retornei ao táxi que estava lá me esperando. A minha mochila com tudo o que eu tinha também estava lá, sã e salva. Se o motorista fosse mau caráter poderia ter me roubado, mas era uma pessoa honrada e me levou em segurança até a cidade de Luxor onde eu começaria mais uma etapa das explorações pelo Egito.

No caminho pela estrada que beira o Nilo percebi a importância dessas águas para os egípcios


Antes de partir, tiramos uma foto no calçadão de Esna, na beira do Rio Nilo. Recomendo os seus serviços de táxi para que estiver em Aswan, carro com ar condicionado. O nome dele é Ali e seu telefone é (002) 01008510505. Se estiver hospedado em Aswan, basta pedir para alguém no hotel ligar e chamar.

Ali (o taxista), eu e o Nilo


CUSTOS (agosto 2014)

- Ingresso no Templo de Khnum - 30 EGP
- Táxi e Aswan para Esna/Luxor - 450 EGP
-  Tips (gorjeta) para o taxista - 50 EGP



MEU ROTEIRO

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Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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