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Egito: Dendera, o templo do zodíaco e das "lâmpadas elétricas"

O templo que preserva as informações astronômicas do passado egípcio


Quem se interessa por assuntos do antigo Egito com certeza já ouviu falar do Templo de Dendera. É um dos que mais recebe turistas devido a sua proximidade com a cidade de Luxor sendo também um dos templos mais preservados. Mas este é muito mais do que um templo bonito no sul do Egito, Dendera é uma verdadeira enciclopédia de conhecimentos antigos que ainda estão sendo decifrados.


COMO CHEGAR?

O Templo de Dendera fica a cerca de 70 km de Luxor (1h30min de carro). Planejei minha ida até Dendera combinando uma corrida com um taxista até Abydos que fica mais 100 km ao norte (350 EGP em agosto 2014). Dendera que fica localizada ao sul da cidade de Qena seria o destino no retorno. 

De Luxor até Abydos, ao norte, e a volta pela estrada do deserto em direção a Qena


No retorno de Abydos pelas estradas do deserto (são mais rápidas, mas não recomendadas pelo governo egípcio por não ter segurança) o táxi passou pela região Nag Hammadi onde, em 1945, foram descobertos jarros de barro contendo códices do cristianismo primitivo com textos gnósticos. Esses evangelhos apócrifos (não reconhecidos como verdadeiros pela Igreja Católica), no qual se inclui o Evangelho de Tomé, foram escritos na língua copta e sobreviveram à censura ao longo dos séculos. Os originais estão no Museu Copta, no Cairo.

Em uma caverna de Nag Hammadi foram descobertos textos gnósticos proibidos


Chegada na cidade de Qena que se destaca pela produção de cerâmica


TEMPLO DE DENDERA

O complexo de Dendera com 40 mil metros quadrados, formado pelo Templo de Hátor e outras ruínas arqueológicas, é considerado um dos templos mais bem preservados do Egito. O templo como vimos hoje foi construído no período ptolemaico, mas sua origem vem de templos muito mais antigos que existiam no local, desde a época do faraó Queops (o suposto construtor da grande pirâmide de Gizé).

Planta baixa do complexo de Dendera (clique para ampliar)


O Templo de Dendera funciona diariamente de 9h às 17h. O valor do ingresso é de 40 EGP (agosto 2014) por pessoa. Possui um centro de visitantes e local de estacionamento que ficam afastados da área arqueológica por uma larga avenida de pedras. Para mais informações, acesse o site oficial aqui.




PORTAL DE ENTRADA

A entrada para a área do complexo acontece através de um portal que permanece de pé apesar do muro em volta estar desmoronando. Mesmo antes de passar pelo portal, existem ruínas de pequenos templos construídos no período greco-romano (54 a 29 a.C.). Esfinges e estátuas encontradas nas escavações também estão expostas por ali.

O portal de entrada possui esfinges e desenhos em suas paredes


Pequeno templo greco-romano do lado de fora das muralhas


Cachorro malandro aproveitando a sombra das pedras


Algumas peças arqueológicas chamam a atenção na entrada do templo


Um disco de pedra ou roda, com cenas mitológicas contendo Amon-Rá e Osiris


MAMMISI

Mas o que seria um Mammisi? Em primeiro lugar, o nome não é de origem egípcia, mas sim copta, e foi usada pela primeira vez por Champollion para designar uma pequena capela situada ao lado de um templo maior, associada ao nascimento de determinada divindade. Em Dendera existem dois Mammisi do lado direito após a entrada nas muralhas: o Mammisi de Nectanebo II e o Mammisi romano (dedicado a Hórus).

O Mammisi romano é o mais preservado


Encontrei esse estranho relevo de um homem de frente, bem diferente do estilo usado pelos egípcios 


Por aqui são encontrados vestígios do uso da técnica de junção de blocos com ligas metálicas...


...mesma técnica usada na Bolívia pré-colombiana (foto em Tiahuanaco, 2013)


Figura de mulher amamentando o filho neste que é um templo dedicado ao "nascimento"


O falcão Hórus representado na sua forma animal


Isis e Osiris recebendo oferendas do faraó, acompanhados da deusa Hátor


O símbolo do Olho de Hórus é reconhecido até hoje como o "olho que tudo vê"


BASÍLICA COPTA

Sobrou pouca coisa dessa basílica que provavelmente foi construída do século V e acabou tendo o teto desmoronando. Restam algumas paredes de pé, com o símbolo da cruz cristã presentes e também a cruz Ankh usada na simbologia da igreja, prova da mistura de crenças. Ao lado, existe as ruínas de um antigo sanatório o qual recebia pacientes de todo o Egito, provavelmente pela crença de cura daquele lugar.

A maioria das construções por aqui se encontram descaracterizadas


A pomba do Espírito Santo da basílica ao lado de outro pássaro, o Hórus no Mammisi


Detalhe artístico com a simbologia da cruz Ankh egípcia num templo cristão


TEMPLO DE HATHOR

A principal atração de Dendera é o templo dedicado à deusa Hátor que é personificação dos princípios do amor, beleza, música, maternidade e alegria. Ela seria a divindade que ajuda as mulheres na hora do parto e também a que recebe os mortos na próxima vida. É venerada muito antes dos períodos históricos. Os gregos antigos identificavam Hátor com a deusa Afrodite e os romanos com Vênus.

A coluna de Hátor é um estilo criado com o rosto da deusa. Estes da fachada foram destruídos


No interior do templo, os rostos de Hátor estão em condições melhores


Todo templo possui  funcionários tomando conta. Fique atento, eles se oferecem para dar explicações e acabam cobrando no final


O primeiro espaço do templo é chamado de Vestíbulo que significa o salão de entrada da construção. O teto do templo foi restaurado recentemente, se tirando toda a fuligem de séculos e ressurgindo as cores originais das pinturas.

O templo foi restaurado recentemente, se tornando um ambiente espetacular de cores


O teto do Vestíbulo há uma representação simbólica das metades norte e sul do céu, as horas do dia e da noite, as constelações e as regiões da lua e do sol. À direita estão as estrelas do norte, enquanto a esquerda mostra as estrelas do sul. O teto está repleto de informações astronômicas que se perderam e estão veladas, nos restando apenas suposições. Nas extremidades estão os chamados Zodíacos Retangulares.

O Zodíaco Retangular de Dendera é envolvido pelo corpo da deusa Nut


Cada retângulo está numa extremidade do teto e mostram os 12 signos mais um (Khephera)


Constelações e signos do zodíaco podem ser identificados (observe Áries e Peixes)


Acima um Touro e abaixo barcos viajando pelas constelações


Existem figuras de Nut em cada extremidade do teto e representa o ciclo contínuo de um dia. Seu vestido é o céu, entre as pernas acontece o nascimento do sol que desaparece durante a noite quando ela o engole. Nut é representada fazendo uma curvatura com o corpo muito parecida com uma posição de Yoga. 

O sol é representado pelo disco solar alado e está na direção da cabeça da deusa


O sol renasce por entre as pernas da deusa da maternidade: Simbologia


O Vestíbulo (o recinto de entrada) possui 18 colunas com o rosto da deusa, já o próximo salão que é a Sala Hipóstila é formada por apenas 6 colunas e 6 capelas. A parte mais sagrada do templo é o Santuário, formado por uma sala central onde somente o sumo sacerdote poderia entrar. Pelos relevos do local, acredita-se que existia uma imagem da deusa Hátor ali e acontecia um ritual diário. Ao redor do Santuário existem 11 Capelas com diversos relevos retratando cenas da mitologia, rituais e outras simbologias difíceis de entender hoje em dia.

O primeiro salão do templo é o Vestíbulo e suas 18 colunas


O Santuário é uma sala central cuja entrada é feita por alto portal


A luz da entrada do templo ilumina diretamente o interior do Santuário


Cada capela possui relevos a serem decifrados, como este  que inclui Isis, o disco solar alado e Hátor


Esta capela ricamente decorada, possui a figura de uma múmia sendo preparada por Isis e sua irmã


O disco solar alado é representado de diversas formas


A LÂMPADA DE DENDERA

Uma capela em especial é a mais misteriosa de todas. Ela possui relevos que representam homens segurando algo que parece ser uma lâmpada elétrica. O desenho ainda possui detalhes como os fios condutores, representados por serpentes, e ainda um cabo de conexão. Além disso, estão apoiadas em outra figura comum na mitologia egípcia e que sempre foi enigmática por se assemelhar com uma bobina elétrica: a coluna Djed.

No alto dos relevos de uma das capelas está representada a dupla de "lâmpadas"


Desenho que está representado em forma de relevo em Dendera


Essa suposta prova de tecnologia antiga tem gerado discussão. A explicação acadêmica rebate dizendo que esses desenhos representam "cobras emergindo em uma flor de lótus como envelopes protetores". As figura pode representar uma flor, uma lâmpada, uma berinjela (!) ou qualquer outra coisa fictícia, mas a verdade é que nenhuma explicação, nem mesmo aquelas dadas pelos egiptólogos, foram conclusivas até hoje.  

A suposta lâmpada é presa por "braços" que saem da coluna Djed


O que se sabe é que os egípcios representavam imagens em escala de importância, ou seja, se as lâmpadas realmente existissem, poderiam ser menores, mas representadas maiores nos relevos. O mistério das lâmpadas de Dendera se somam aos mistérios relacionados à iluminação do interior das pirâmides e tumbas subterrâneas no Egito. Nenhum vestígio de fuligem de tochas ou velas foi encontrado naqueles locais. Como acontecia a iluminação desses ambientes, inclusive para a criação da arte nas paredes? Será que esses objetos representados em Dendera tem alguma ligação com isso?

Apesar da boa preservação do templo, esse relevo se encontra mal cuidado, como se o mundo quisesse que a imagem sem explicação sumisse de vez


A CAPELA DO ANO NOVO

Uma outra capela se destaca das demais por estar localizada em local descoberto. Existe uma porta até um pequeno pátio aberto que dá acesso à essa capela, chamada pelos egiptólogos de Capela do Ano Novo. Está relacionada, provavelmente, aos rituais de recebimento do raio solar e união com o sol no primeiro dia do ano.

Os corredores do lado direito do templo levam até a Capela do Ano Novo


Um pequeno pátio descoberto leva a luz do sol no local cerimonial


A fachada é cheia de referências à deusa Hátor e ao sol 


O teto da capela mostra claramente o sol nascendo no ventre de Nut e iluminando um personagem


TERRAÇO DO TEMPLO

Acredita-se que parte da cerimônia de ano novo era feita na parte de cima do templo. Existe uma escada no mesmo corredor da Capela do Ano Novo que leva até o terraço. Lá em cima existe uma capela descoberta com 12 colunas ao redor chamada Capela de União com o Disco Solar. De cima do terraço se tem uma boa vista dos arredores do templo.

A escadaria que leva ao terraço é cheia de relevos e possui degraus já desgastados com o tempo


Capela de União com o Disco Solar


Do lado esquerdo do templo havia um Lago Sagrado. A construção de templos ao lado desse tipo de lago era uma prática comum no Egito e se assemelha à tradição dos Maias na península do Yucatán, no México, que construíam seus templos próximo aos cenotes (lagos subterrâneos). A semelhança entre essas culturas sempre foi um mistério.

Este pórtico era uma entrada lateral nas muralhas do templo de Dendera


A muralha de tijolos de barro está bem deteriorada


Existem outras salas na parte superior do templo


O ZODÍACO DE DENDERA

No terraço existe outras salas, mas a mais importante é aquela dedicada a Osiris e onde foi descoberto o relevo de um zodíaco circular esculpido no teto, representando constelações em um plano de projeção. Em 1820, durante a invasão do Egito por Napoleão, este zodíaco foi removido do teto do templo e levado para a França, estando atualmente no Museu do Louvre, em Paris. No local permanece uma réplica de gesso fiel do zodíaco. 

Cópia da placa de pedra com o Zodíaco de Dendera


É possível ver as 12 constelações do zodíaco, representadas da mesma forma como são feitas hoje. Descobriu-se através dos hieróglifos desta sala que o zodíaco tinha a finalidade de definir a posição das constelações no céu em determinado período. Essa informação permitiu descobrir a datação do templo. O mais estranho é que essa data de marcação das estrelas ocorreu bem antes da construção do templo, sugerindo que o zodíaco foi reproduzido partir de uma cópia anterior.

Desenho do Zodíaco de Dendera destacando os signos


A mesma sala possui outros relevos bem interessantes e simbólicos. No teto do templo, ao lado da posição do zodíaco, existe uma representação da deusa Hátor de corpo completo e com braços esticados.
Há uma imagem de Hátor de corpo nu e braços esticados bem ao lado do zodíaco circular


O corpo de Hátor e outros relevos no teto se encontram sem preservação


Muita coisa ainda existe a ser descoberta neste templo, mas nem todas serão por ter se perdido informações ao longo dos tempos. Mas o Templo de Dendera é uma conexão com o passado egípcio e oportunidade para nos fazer refletir.

Teto solar com o relevo de uma múmia


Uma cena rara: divindades tocando arpas nas colunas da sala do zodíaco


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Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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