Chapada Diamantina: A Trilha do Garimpo

No caminho entre Igatu e Andaraí estão as ruínas do passado 


Eu precisava chegar na cidade de Lençóis naquele dia que ficava a cerca de 100 Km de Igatu, onde eu me encontrava. O mais complicado é que o transporte público entre as cidades da Chapada Diamantina praticamente não existe. Eu deveria conseguir uma carona que fosse para lá ou então tentar a sorte na cidade de Andaraí, a segunda maior cidade da Chapada e que ficava a 15 Km. Uni o útil ao agradável e segui caminhando pela Trilha do Garimpo.



CEMITÉRIO BIZANTINO (VERSÃO IGATU)

A trilha começa em frente a Igreja de Igatu. Do lado está o cemitério com túmulos semelhantes àqueles encontrados no cemitério Santa Isabel de Mucugê, apelidado de Cemitério Bizantino. Aqui em Igatu foi só o estilo que foi copiado, mas todos foram enterrados na igreja como era o previsto naquela época. 

A igreja de pedra de 156 anos de existência


Existe uma divisão entre pobres (enterrados no terreno da frente) e ricos (enterrados ao lado da igreja). Nessas horas, somente a arquitetura do túmulo para diferenciar, mas todos vão para debaixo da mesma terra.

A maioria dos túmulos mantém o estilo de pináculos, volutas e arcos


Uma curiosa homenagem ao Cristo Redentor


Estatuetas de santos no lado dos pobres que mais parecem objetos de filme de terror


A TRILHA PELAS RUÍNAS DO PASSADO

A trilha é longa (5,8 Km) mas é predominantemente uma descida até chegar na estrada de asfalto que liga Mucugê a Andaraí. Outro caminho possível de percorrer é a estrada para carros que liga Igatu à mesma estrada asfaltada em direção a Andaraí, ela é calçada por pedras, diferente da estradinha de terra que eu cheguei a vindo de Mucugê.

Trilha de descida para Andaraí é cercada de ruínas


Aquele local era um bairro chamado Luiz dos Santos e foi habitado até meados do século passado. Por se tratar de uma grande área de mineração, se estabeleceram rapidamente as construções residenciais dos garimpeiros que trabalhavam nos arredores. 

Essa via no passado foi uma rota povoada do minério


Aquele se tornou um grande bairro popular onde era comum blocos de carnaval e reisados (festa de Folia de Reis). Por incrível que pareça, em Igatu existia cabarés, cassinos, lojas, cadeia, cartório e até cinema, mas tudo se extinguiu devido à escassez de minério e foi agravado por uma seca devastadora nos anos 40. Um verdadeiro mundo perdido no interior da Bahia.



Várias casas improvisadas nas rochas, lembram a Capadócia


Outras eram mais elaboradas e possuíam reboco


Diz a lenda que, por ser um dos núcleos de maior concentração populacional, após a decadência do ciclo de mineração, as casas daquele bairro de Igatu foram destruídas pelos próprios moradores a procura dos últimos diamantes em seus subterrâneos. Foram quase 200 anos de exploração e se parar para observar, existem montanhas de escombros pelo caminho.

Vários escombros confundem o que foi feito pela erosão e o que foi explosivo


Algumas paredes de pé foi tudo o que sobrou de um passado de cerca de 9 mil habitantes


O MUSEU A CÉU ABERTO DO GARIMPO

Na trilha existe um pequeno museu com utensílios encontrados nas ruínas. Seu nome é Galeria de Arte e Memória de Igatu e possui uma taxa de visitação de R$ 5 por pessoa (dezembro 2015). O museu conta a história do Bairro do Luiz dos Santos em que atualmente passa a Trilha do Garimpo.

Em meio às ruínas está o que sobrou daquele pedaço de história do Brasil


Tudo fica exposto ao céu aberto e com bastante cuidado dos responsáveis


Objetos do século 19 e início do 20


A HISTÓRIA E A NATUREZA COMO TESTEMUNHAS

A história oficial da colonização da Chapada Diamantina diz que começou em 1710 junto com a descoberta de ouro no sul da região. Quanto ao diamante, não se sabe quando foi encontrado pela primeira vez. Em 1844, foi o primeiro anúncio oficial da descoberta de diamantes. Assim começou a corrida pela valiosa pedra na região. Na mesma época o plantio de café/algodão produziu o surgimento do coronelismo, o qual dominou a região. Três décadas após o anuncio de diamantes passaram também a exploração do carbonato na Chapada Diamantina. O Carbonato foi exportado por altos preços pelos países europeus.

Caminhos de abertos onde outrora foi um bairro movimentado


Analisando pela visão da geologia, a trilha também é interessante para se observar as camadas de rochas



Ao longo de toda a trilha existem vestígios do passado, seja de escombros de pedras e grunas, seja de muros residenciais, seja pisos assentados com pedras, etc. Nas partes mais baixas a trilha cruza por cachoeiras e já é possível ver que aquele é um local frequentado por turistas que estacionam o carro na beira da estrada e fazem a trilha no sentido inverso para tomar banho nas cachoeiras.


Iniciais gravadas num piso assentado de pedras


Belas cachoeiras cruzam o caminho pela trilha


Para quem ainda não assistiu, abaixo está a reportagem do Programa Mais Você sobre Igatu com cenas nas ruínas ao longo da Trilha do Garimpo:



ESTRADA PARA ANDARAÍ

A primeira etapa foi cumprida na minha andança para chegar em Andaraí. Eu ainda teria mais 10 Km pelo asfalto para chegar no centro dessa que é a segunda maior cidade da região e o único meio de achar um transporte para Lençóis.

De volta à estrada asfaltada que liga os municípios de Mucugê e Andaraí


Eu achei que conseguiria fácil uma carona mas me enganei, a estrada é estreita e cheia de subidas e descidas, é perigoso parar um carro em qualquer trecho para oferecer carona. Ou eu ficava estático num ponto possível ou eu desistia. Desisti e fui fazer uma das coisas que mais gosto: andar! Valeu a pena principalmente por cruzar a ponte de 60 metros sobre o Rio Paraguaçu, um excelente visual.

Rio Paraguaçu, um dos mais importantes da região


Depois de horas caminhado com o mochilão, eu já me encontrava da estrada de entrada na cidade de Andaraí. O calor estava forte e a água estava acabando. Foi então que um carro parou e me ofereceu carona sem eu pedir. Era um homem com sua cunhada que moravam na cidade e já dependeram de carona em algumas ocasiões. Contei minha história da aventura pela Chapada até aquele momento e eles fizeram questão de me deixar na rodoviária da cidade (afastada do centro). 

Enfim a chegada na estrada de Andaraí


A mulher ainda fez uma ligação para um conhecido para confirmar qual ônibus eu deveria pegar para Lençóis. A partir daquele momento eu teria que esperar o ônibus das 14h00 sem saber o que me aguardava.


MEU ROTEIRO


Anterior: RAMPA DO CAIM

Roteiro completo: MISSÃO CHAPADA DIAMANTINA




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Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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