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Chapada Diamantina: Travessia do Parque (Parte final) - O perrengue

Atravancado o cerrado até achar o destino perdido 


Depois de montar acampamento num lugar improvisado para passar a noite, minha única preocupação era os efeitos do vento naquele campo de vegetação baixa. Dependendo da força, eu poderia sair voando junto com a barraca. N madrugada, não teve nada mais do que umas rajadas rápidas batendo na barraca.

O dia amanheceu chovendo como sempre e eu esperei estiar para continuar a caminhada para, enfim, chegar a cidade de Mucugê. Percebi que minha bota estava com a sola rachada e meu pé estava se machucado por ficar molhado.

O dia amanhece nebuloso na Chapada, algum comum


O pé já pedindo arrego com a sola da bota rachada


PRIMEIRA TENTATIVA DE ACHAR A TRILHA

O primeiro perrengue do dia foi conseguir achar a trilha que eu havia me afastado no dia anterior. Andei em círculos por quase 2 horas, entrando e saindo de trilhas falsas, feitas pelo gado, ate achar uma que seguia na direção correta que meu GPS apontava, o córrego afluente do Rio Preto. Quando tudo parecia resolvido e eu seguia ouvindo meu mp3 player, a trilha começou a fechar ate que desapareceu! 

Muitas trilhas feitas pelo gado confundem e atrapalham a achar a trilha original


Esse trecho, apesar de complicado, é rico em nascentes de água


SEGUNDA TENTATIVA DE ACHAR A TRILHA

Comecei a andar em "zig zag" para ver se eu achava a trilha que talvez tivesse desviada e já estava imperceptível pelo longo tempo sem ninguém pisar ali. Apesar de eu ter a direção que eu deveria seguir no GPS, era quase impossível caminhar fora da trilha. O cerrado (como o próprio nome já diz) é um tipo de vegetação muito fechada, muito difícil de se deslocar.

Ao sumir a trilha, começava do desgaste de andar na vegetação fechada e perigo de serpentes


A dificuldade de caminhar procurando a trilha começou a me deixar cansado, então eu tive que tomar uma decisão definitiva: atravancar em linha reta até o ponto que o GPS marcava, esse ponto provavelmente teria sido marcado numa trilha. Naquele terreno, seguir em linha reta significa encontrar vários obstáculos, mas foi isso que eu fiz. porém não foi mole percorrer quase 2 Km naquela situação. 

Como eu não podia correr o risco de gastar a pilha do GPS (apesar de ter reservas na mochila) peguei outro item que eu levava para aquela aventura: uma bússola. Marquei o rumo e segui passando em meio a arbustos e andando quilômetros levantando a perna para passar entre a vegetação rasteira.

Foto tirada num dos momentos que eu me encontrava praticamente preso na vegetação fechada


Comecei a me aproximar do meu destino e as coisas foram complicando ainda mais. O terreno foi ficando inclinado em meio a vegetação fechada que ficava mais alta. Foi então que eu alcancei o rio mas... surpresa! Havia um desnível de uns 10 metros de onde eu estava para chegar no córrego. 

Desnível de pedras que eu tive que descer


Não havia como seguir pela margem até a parte baixa porque a vegetação era muito fechada e minha mochila ainda dificultava o deslocamento. Minha opção era arriscar desescalar até o nível do córrego, então comecei a descer apoiando na vegetação, com bastante cuidado, se acontecesse algum acidente, como uma perna quebrada por exemplo, ninguém me encontraria ali, não havia vestígios de civilização, eu estava no meio do nada. Tudo aquilo me lembrava o filme 127 Horas, uma história real de um rapaz que se acidentou num lugar isolado.

Consegui pular numa laje de pedras. Primeiro obstáculo vencido


Consegui descer saltando numa laje de pedras no último lanço e, de lá, eu ainda teria que chegar a uns 200 metros para oeste, onde estava o ponto marcado no GPS. Andar pelo córrego sem margem era difícil, ainda mais com um mochilão e com o pé já ferido, mas era minha única esperança de encontrar a trilha. Depois de passar saltando de pedra em pedra, pulando troncos, livrando galhos e caminhar por terras inclinadas, finalmente encontrei a trilha. Mereceu até uma parada para o almoço.

Segundo obstáculo vencido: trilha encontrada


A LAPA DO CABOCLO

De volta a trilha, da mesma forma pouco visível por não ser passagem frequente de pessoas, continuei rumo à Lapa do Caboclo caminhando mais uns 5 Km, um ponto turístico que se resume num conjunto de cavernas em que uma delas possui pinturas rupestres.

Já sobre a trilha, o objetivo era cruzar mais 5 Km até a Lapa do Caboclo


A paisagem começa a mudar ao se aproximar de Mucugê. Primeiramente os morros começam a se aproximar e mostrar suas formações repletas de pedras. A trilha começa a parecer mais nítida mas, em alguns pontos, fica alagada pela água que desce da parte alta.

 Morros de pedras e grutas


Durante minha caminhada cheguei num ponto em que esse alagamento era fundo, analisei se conseguiria passar e percebi que só pulando, mas com mochila tudo fica mais difícil. Então, tirei a mochila e lancei para o outro lado, dei distância e saltei para o outro lado, esse era apenas mais um obstáculo naquele dia.

Trilha nos gerais que algumas vezes é cortada por cursos da água


Área que já apresenta cactos na sua vegetação


A trilha então chega num muro de pedras e depois bifurca, para seguir para Lapa do Caboclo/Mucugê o caminho certo é o lado direito. Depois o terreno muda de novo e a trilha fica difícil de acompanhar porque se passa pelo solo de pedras, nesse ponto é preciso ter atenção.

A muralha de pedras já é um sinal de que a área mais selvagem ficou para trás, será?


Continuei andando na direção certa até que fui surpreendido com uma teia de aranha que prendeu em mim. Não era uma teia comum como aquelas que estamos acostumados a encontrar nas cidades. As fios eram bem mais espessos, algo impressionante. Dali em diante a trilha cruzava com áreas cercadas dessas teias e era preciso desviar delas.

Olha a grossura da teia das aranhas da Chapada!


Planta típica da Chapada Diamantina

Cheguei na Lapa do Caboclo e já conseguia observar os primeiros sinais da civilização pois havia pegadas e marcas de bicicleta de passeios guiados a partir de Mucugê. A tarde já estava chegando ao fim e eu deveria tomar a decisão se pernoitaria por ali ou continuaria o caminho até Mucugê. Então eu não perdi tempo e fui rumo à cidade.

Paredão de rocha da Lapa do Caboclo


Pintura rupestre da Lapa do Caboclo


NA ROTA DA CIVILIZAÇÃO

A trilha em direção à cidade de Mucugê, apesar de não haver ninguém naquele dia (provavelmente por ser véspera de natal) já criava uma atmosfera de readaptação a civilização. Marcas de pegadas e dos pneus de uma bicicleta me mostravam que eu estava na direção correta.  A trilha passava por um terreno mais uma vez diferente, sendo todo arenoso e com a presença de samambaias.

Trilha com marcas humanas e de bike


Vegetação diferente na área: palmáceas


O relevo continua surpreendendo com sua beleza exótica


A TRAVESSIA DOS RIOS

Quando eu pensava que a aventura já havia passado e que era uma questão de tempo para chegar na cidade, me deparei com mais um desafio. O último ponto que o GPS marcava na área do Parque era o encontro dos rios Preto e Paraguaçu e eu cheguei lá com o sol já quase se pondo, o problema é que não há pontes e a travessia tem que ser por dentro d´água. 

Encontro dos rios Preto e Paraguaçu


Como eu estava com a mochila grande e não tinha preparado impermeabilização para submergir na água, coloquei os equipamentos eletrônicos dentro e tentei proteger ao máximo de uma eventual "caída" na água. O rio tinha uma correnteza forte e era cheio de pedras, logo tentei ir pulando de pedra em pedra, até as que estavam embaixo da água, mas não consegui, em certo ponto a profundidade aumenta e se eu continuasse entraria água na mochila. 

O desafio seria atravessar esse rio sem molhar o meu equipamento


Já cansado, tentei por outro ponto, fui por dentro d´água de novo até chegar nas pedras no meio do rio, mas não deu para seguir adiante. Já começava a planejar a usar o poncho para impermeabilizar a mochila e assim atravessar com ela na mão, então eu vi um meio de atravessar: uma pequena barragem de pedras. Fui atravessando quase engatinhando, com a mochila nas costas, com cuidado para as pedras não soltares e eu não cair com a força da correnteza. Enfim, mais um obstáculo ultrapassado.

Na terceira tentativa, achei uma barragem que foi minha passagem para Mucugê


CHEGADA EM MUCUGÊ

Depois de atravessar o rio eu teria que andar mais 4 Km até chegar na cidade. O primeiro trecho é uma estrada de terra de uns 2 Km até chegar na rodovia de asfalto (BA-245). No asfalto, virei a esquerda e segui caminhando  até Mucugê a qual cheguei já n escuro. Perguntei sobre um local de camping e me indicaram a Hospedagem do Sr Heloi, mas ao chegar lá o camping estava desativado. O jeito foi ficar num quarto com TV e aproveitar a noite de natal.

Depois do rio, um estrada erodida mas que passa até carro


Placa no encontro da estrada de terra com o asfalto


Enfim a noite chega...


...e eu chego na civilização depois de 3 dias caminhando com a natureza



MEU ROTEIRO

Anterior: 
TRAVESSIA DO PARQUE (Parte 2) - CACHOEIRÃO

Roteiro completo: MISSÃO CHAPADA DIAMANTINA

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Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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