Egito: Edfu e o templo do deus Hórus

No templo recheado de simbolismo do deus Hórus


Meu planejamento inicial era sair de Aswan e chegar em Edfu de trem regional. A partir da estação de Aswan, a cidade de Edfu fica na sexta estação em direção ao Cairo. Chegando lá, eu teria que pegar outra condução até o meu objetivo que era o Templo de Hórus, localizado cerca de 4 Km da estação. Existe táxi, tuk tuk (aquele veículo engraçado de 3 rodas) e até carroça. Era só pedir para o condutor levar até maabd Edfu. Porém, o trem que sairia a princípio às 9h30 não apareceu por lá, sendo o próximo somente às 13h00. A minha solução foi negociar com um taxista a corrida até lá.

Grandes minaretes destacam as mesquitas das cidades de interior nas estradas para Edfu


Depois de fechar uma corrida com um taxista de Aswan com de muita negociação, seguimos para Kom Ombo e, depois de explorar aquele templo, continuamos o caminho da estrada que beira o Nilo até chegar em Edfu, localizada no meio do caminho entre Aswan e Luxor, cerca de 115 Km de cada cidade. Quanto mais eu me afastava de Aswan, mais eu conhecia um Egito que poucos turistas têm a oportunidade de ver.

Plantações irrigadas pelo Rio Nilo criam a faixa verde no meio do deserto


O TEMPLO DE HÓRUS

A chegada no local já foi turbulenta. O táxi parou no estacionamento e eu segui andando pela via de acesso à bilheteria. Como a maioria dos templos, esta via é repleta de lojinhas de artesanatos, roupas e lembranças. Um dos vendedores grudou no meu pé e me perturbou para entrar na sua lojinha, quando ele percebeu que eu não iria entrar, insistiu para eu pegar o cartão dele e voltar lá na saída.

Escada de acesso ao grande templo de Hórus


Ao chegar na bilheteria aconteceu um situação suspeita. Ao tentar pagar o ticket no guichê, um segurança com um revólver na cintura se aproximou e perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileiro e fui bem tratado, porém ainda desconfiei do jeito malandro deste segurança. Ele mesmo cobrou o ingresso, me entregou o ticket e abriu a passagem. Mais tarde eu percebi que o papel do ticket era usado, diferente dos demais templos que sempre entregaram tickets novos. Será que era algum esquema de venda ilegal entre dos funcionários?

Ticket de entrada no Templo de Hórus


O Templo de Hórus, além de ser um dos mais conservados do Egito, está localizado num dos principais pontos de passagem das antigas caravanas. Por ter sido o local de culto do deus Hórus, a cidade ficou conhecida como cidade de Hórus no passado. Mais tarde, na época greco-romana, a cidade passou a ser conhecida como Apollnopolis Magna (a grande cidade de Apollo) depois que os gregos igualaram Hórus à Apollo na mitologia.

O Templo de Hórus é um dos melhores em conservação no Egito


Este é um templo ptolomaico construído em cima de um pequeno templo mais antigo datado entre 1550 a.C. - 1077 a.C. Se a gente já acha que são antigos, imagina os templos anteriores a este que se encontravam ali, quanto conhecimento deveriam guardar do início dos tempos. 

Estátua do falcão Hórus na entrada do templo


Quando se fala em templo ptolomaico, se refere a dinastia ptolomaica que foi uma linhagem familiar que governou o Egito de 305 a 30 a.C. Nesta dinastia, todos os reis assumiram o nome de Ptolomeu que foi o pai do fundador da dinastia. Ele foi um dos generais de Alexandre Magno. Apesar da origem macedônia, esta dinastia respeitou a cultura egípcia, mantendo seus aspectos antigos e adotando seus deuses. Os faraós desta dinastia foram responsáveis por grandes construções além do Templo de Hórus, como o Farol / Biblioteca em Alexandria e o Templo de Ísis na ilha Philae.

Rei Ptolomeu VIII subjugando os inimigos ajoelhados no relevo da fachada do templo


Bem acima da entrada para o primeiro átrio, na fachada do pilone, encontra-se em relevo um belo disco solar, com as asas abertas do falcão. Acredita-se que foram os faraós da V Dinastia, por volta de 2400 a.C., que introduziram o disco solar alado com o uraeus, ou cobra, de cada lado. O disco solar era o de Ra, ou Aton. As asas eram de Hórus.

No teto do portal de entrada está o disco solar alado e sinais de proteção


Vestíbulo com 12 colunas em forma de flores


Hieróglifos enigmáticos e bem preservados


Após o Egito ficar sob poder do Império Romano, o imperador Teodósio I (379 a 395 d.C.) ordenou o fechamento dos templos pagãos, fazendo com que este de Hórus também ficasse em desuso religioso. Como em outros templos, muitos relevos foram destruídos pelos seguidores da fé cristã. O teto enegrecido da sala hipostila é possivelmente o resultado da ação de um incêndio provocado pelos fanáticos religiosos. 

Relevos destruídos por aqueles que acreditavam que isto representava demônios

Colunas no estilo campaniforme e o teto enegrecido por um incêndio


Alguns corredores do templo levam ao telhado, outros levam ao nilômetro (poço usado pelos sacerdotes para medir o nível de água do Nilo e prever inundações ou secas). 

Nos corredores escuros do templo


O DEUS HÓRUS


Diz a lenda que Hórus foi concebido por Isis, quando Osíris, que era seu pai, já estava morto. A fecundação ocorreu quando Isis, na forma de um pássaro, pousou sobre a múmia de Osiris. A história de Hórus é relacionada com a de Jesus pelo fato de sua mãe ter engravidado milagrosamente. Hórus é representado pelo falcão, animal cuja vista é tão poderosa que pode fixar o Sol. Os olhos de Hórus representam o Sol e a Lua. 

Hórus era um deus solar, filho de Osíris e Ísis, considerado como a manifestação do poder do Sol


Mais tarde, para vingar o pai e conquistar o Egito, Hórus realizou um duelo com Seth, irmão e assassino de Osiris. Na luta, perdeu um olho que foi substituído por um amuleto de serpente (que os faraós passaram a usar na frente das coroas). O olho que Hórus feriu (o olho esquerdo) é o olho da Lua, e o outro é o olho do Sol. Esta é uma explicação dos egípcios para as fases da lua, que seria o olho ferido de Hórus.

A barca sagrada dentro do santuário de Hórus


Hórus derrotou o assassino de seu pai, Seth, e se tornou o rei de todo o Egito fazendo a união do Alto Egito e o Baixo Egito. Por esse motivo ele é representado com uma coroa com uma parte superior branca, (Alto Egito) e uma parte inferior vermelha (Baixo Egito). Baseados neste mito, os governantes do Antigo Egito se personificavam como representantes de Hórus na Terra enquanto eram vivos. Já após a morte, eram relacionados ao deus Osíris. 

A lenda de Hórus se assemelha com a de Jesus


A DEMONSTRAÇÃO DE AFETO DOS ANTIGOS

Na arte egípcia é comum se encontrar figuras representando pessoas e/ou deuses demonstrando afeto ou união por meio de mãos dadas. Dos templos egípcios, este dedicado a Hórus é um dos mais fáceis de se encontrar essas representações nas paredes. Existem 12 capelas em volta do santuário onde estão diversas cenas religiosas e de rituais referentes ao deus Hórus, e nelas podemos encontrar essa forma de simbolizar a união dos seres.

 Osiris de mão dada com seu filho Hórus que não conheceu em vida


Detalhe da arte egípcia para a demonstração de união 


Outro relevo de Hórus de mão dada

Mas não é somente a união das mãos que é demonstrada. Uma cena que me chamou a atenção foi o relevo que mostra Isis abraçando Osiris de uma forma bem calorosa e moderna, passando seus braços sobre os ombros dele e o prendendo para junto de si. Este e outros relevos fazem do Templo de Hórus um exemplo da demonstração de afeto egípcio.

Isis abraça Osiris representados de uma forma bem moderna


Hórus sendo tocado no ombro em tom de amizade
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Curiosidade: Você sabia que o costume de se usar alianças de casamento veio do Egito Antigo? Os egípcios sendo grande conhecedores da medicina sabiam que o dedo anelar esquerdo possui a vena amoris, uma veia que liga o dedo direto ao coração. Usavam inicialmente fitas que simbolizavam que o coração do amado estava amarrado. Com o tempo isso evoluiu para anéis de formato de círculo, ou seja, sem fim. Com a conquista do Egito por Alexandre, O Grande, em 3 a.C., este costume foi introduzido na Grécia onde passou a existir alianças imantadas, como forma de manter os corações atraídos. Depois veio o Império Romano que absorveu o costume e então a criação da Igreja Católica. Já o anel de noivado surgiu através do decreto do Papa Nicolau I, no ano de 680, para a declaração pública obrigatória da intenção de casamento. O anel de noivado ficaria na mão direita até o momento do casamento, quando era passado para a mão esquerda significando que passou para perto do coração.

Objeto em forma de coração que brota junto com as flores


Corações? Girinos? Maçãs? e a serpente com antenas?


RITUAIS E OFERENDAS

Outra coisa comum de se observar são os relevos que descrevem rituais e oferendas , principalmente nas duas antecâmaras próximas ao santuário. É interessante ver a diversidade de coisas ofertadas ao deus Hórus, inclusive alguns relevos que fazem a imaginação voar.

As paredes próximas ao santuário representam diversas cenas de rituais e oferendas


Bandeja com alimentos para oferenda aos deuses


Saindo dois shakes! Seria Ovomaltine?


Um relevo que ficou famoso é este abaixo. Depois da invenção do WI-FI e seu símbolo conhecido, a figura parece um local de internet disponível. Será que os antigos imaginavam que esta cena seria relacionada a algo assim um dia?

Sinal WI-FI no templo?


CURIOSIDADES E MISTÉRIOS

Este templo cheio de simbologias não poderia passar pelas minhas vistas sem que eu procurasse detalhes interessantes que poucas vezes são percebidos.  Um detalhe curioso é a história deste templo que, na verdade, estava enterrado nas areias a 12 metros de profundidade desde a antiguidade, tendo seu terreno ocupado por casas de habitantes locais. Só era visível a parte superior dos pilones. Somente em 1860, o egiptólogo francês Auguste Marriete começou a escavação. Em 2005, o templo foi reformado e construído o centro de visitantes e o estacionamento. Já em 2006, foi instalado o sistema de luzes.

12 metros coberto de areia foi o resultado de milhares de anos de esquecimento do templo


Degraus gastos por milhares de anos de pisadas


Nestes relevos encontrei uma imagem semelhante a qual encontrei no Templo de Kom Ombo e a qual descrevi naquela postagem (para ler, clique aqui). No relevo de Kom Ombo, a explicação que recebi dos vigias do templo é que aquele instrumento era um estetoscópio médico (!). Mesmo duvidando, depois eu percebi que fazia algum sentido de acordo com as descobertas nas paredes do templo. E este instrumento de Edfu, seria também algo do tipo? 

Um objeto como um estetoscópio é oferecido a Hórus


Uma imagem interessante encontrada em alguns templos egípcios é a representação de embarcações. Não é segredo para ninguém que o Rio Nilo era a principal artéria que trazia prosperidade às terras da região (e traz até hoje). Logo, essa rotina fez evoluir a navegação fluvial através de barcos muito bem projetados. Um dúvida histórica é se esse desenvolvimento poderia ter se estendido aos mares. Será que esta civilização de milhares de anos, já tão desenvolvidas em vários campos científicos, poderia ter navegado para outros continentes? Será que isso explicaria a existência de pirâmides e da técnica de escritas em relevos nas civilizações antigas da América?

Relevo de uma embarcação egípcia

Os relevos que encontramos no Templo de Hórus são os mais diversos e muito bem conservados. Um relevo bem interessante que observei é este abaixo. Primeiramente, dois discos solares com Uraeus. Uraeus são as serpentes em posição de ataque que eram usados como adornos na cabeça pelos faraós e significavam a autoridade divina. Uraeus é uma palavra grega que significa "em sua cauda". Além disso, vemos Hórus representado aqui como uma esfinge e, em oposição, um abutre portando uma adaga.

Hórus representado como uma esfinge 


Rosto de frente nos hieróglifos ainda coloridos 


Outro relevo interessante é este abaixo, com uma fila de babuínos em reverência. O babuíno é uma das representações do deus Thoth que era o pai da sabedoria, do intelecto divino, patrono dos escribas, dos médicos e dos sacerdotes. Ele é o responsável por anotar os resultados da pesagem do coração do morto, procedimento realizado no dia do julgamento no Tribunal de Osíris. Também é representado por um pássaro íbis.

 Uma fila de babuínos bem diferentes

Dentre os hieróglifos do templo, me chamou a atenção esta parede. Acima dos relevos de flores de papiro, está uma faixa de escritas em que se pode encontrar a Coluna Djed. O significado desta coluna é tema de discussão entre os especialistas. Propõe-se que seria uma árvore sem ramos, uma coluna obtida a partir de um feixe de canas ou um poste com cereal atado. No Livro dos Mortos, o djed era a coluna vertebral do deus Osíris. Outros teóricos mais alternativos dizem que esta coluna representa um aparelho gerador de energia elétrica.

Hieróglifos interessantes como estes acima do relevo de flores

A Coluna Djed, um disco solar, pratos e uma estrela


Ainda explorando os hieróglifos encontrei uma esfinge segurando o Ankh, a chave da vida. Um dos significados do Ankh é que combina duas forças, a cruz que representa o elemento masculino e a oval, o feminino, ou seja, os dois princípios geradores da vida. Em outro hieróglifo, percebi um "S" deitado. Pode não ser nada, mas me lembrou uma suástica pela metade. Será que possui relação com aquele símbolo antigo?

 Uma esfinge segurando a chave Ankh 


Flores de papiro e um "S" deitado, como uma suástica pela metade



NA SAÍDA DO TEMPLO


Os corredores externos em volta do templo são bastante ricos em detalhes e representam cenas da mitologia de Hórus, como a cena em que Seth se disfarça de hipopótamo e Hórus tenta caçá-lo com uma lança. Comparando-se a outros templos, os relevos estão muito bem preservados.

Os corredores cheios de detalhes do Templo de Hórus


Quando eu já estava saindo para ir embora, no corredor externo direiro do templo, percebi lá no alto uma cena que me chamou a atenção. Hórus sentado ao trono com um personagem diferente dos demais a sua frente. O indivíduo é gordo, está sentado em algo que parece uma flor de lótus e possui um disco solar em sua cabeça. Coincidência ou não, é exatamente semelhante à representação dos budas orientais.

Relevo de um homem gordo, dentro de uma flor de lótus e com um disco solar na cabeça

Representação de um buda oriental com as mesmas características do relevo egípcio


No simbolismo budista, o significado mais importante da flor de lótus é pureza do corpo e da mente. A água lodosa que acolhe a planta é associada ao apego e aos desejos carnais, e a flor imaculada que desabrocha sobre a água em busca de luz é a promessa de pureza e elevação espiritual. A flor de lótus representa um mistério para a ciência, que não consegue explicar a característica própria que possui de repelir microorganismos e partículas de pó.


MAPA DO TEMPLO


RETORNO PARA ASWAN

Terminada a exploração no templo, segui o caminho para o táxi e fui abordado novamente pelo mesmo vendedor que havia me dado um cartão de sua loja. O rapaz chegou a me segurar pelo braço para me puxar para dentro da loja. Nada feito e eu continuei andando até chegar no carro. Quando ele viu que não conseguiu me convencer, fez algo que me surpreendeu: pediu o cartão de volta. Pois é, naquele momento eu percebi que até confeccionar um cartão é algo de luxo para aquele povo necessitado. Entreguei o cartão e ele se despediu amistosamente de mim.

Iniciamos então o retorno para a minha cidade base, Aswan. Apesar de eu ser desconfiado, tudo tinha dado certo com aquele taxista. De repente ele pára o carro e sai repentinamente. Fiquei bem atento pensando que podia ser um golpe para assalto, mas não era nada disso, ele parou para prestar apoio à outro taxista que teve pane no carro (algo muito comum de acontecer no Egito). O engraçado é que ele ignorou o fato de estar levando um passageiro.

Meu taxista parou no meio da estrada e foi socorrer o companheiro, sem se importar com seu passageiro (no caso, eu)


Enfim ele seguiu o caminho até chegar em Aswan. Na hora de pagar a corrida, o taxista teve a cara de pau de sugerir 50 EGP de gorjeta. Peguei o contato do taxista para utilizar se necessário (e foi necessário, mas essa é outra história).


GASTOS (agosto 2014)

Táxi para Kom Ombo/Edfu (ida + tempo de espera + volta) - 250 EGP
Entrada no templo: 60 EGP


MEU ROTEIRO

Anterior: KOM OMBO

Roteiro completo: MISSÃO EGITO

Próximo: OBELISCO INACABADO


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Renan tem 35 anos, é carioca, mochileiro, torcedor do Botafogo, historiador e arqueólogo amador. Gosta de viajar, fazer trilhas, academia, ler sobre a história do mundo e os mistérios da arqueologia, sempre comparando os lados opostos de cada teoria. Cada viagem que faz é fruto de muito planejamento e busca conhecer o máximo de lugares possíveis no curto período que tem disponível. Acredita que a história foi e continua sendo distorcida para beneficiar alguns grupos, e somente explorando a verdade oculta no passado é que se consegue montar o quebra-cabeça do mundo.

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